Pedagogia do Contexto: Por uma escola sem partido

Pedagogia do Contexto:  Por uma escola sem partido

Muata Sebastião | A educação é um processo social e contínuo, um processo iniciado desde a tenra idade, dando vida ao “corpo social”. E ela é segundo Castro Dias (1978) “um meio pelo qual a sociedade prepara, no íntimo das crianças, as condições essenciais de sua própria existência”(1), um acontecimento intrínseco à vida humana, sendo assim, a  ninguém deve ser negado tal direito pelo facto de, ela constituir-se em uma base fundamental para o desenvolvimento social e humano. Para tal, os promotores sociais pela educação (Estado e instituições a fins) devem olhar nela como algo que acontece numa sociedade identificável, onde seu desenrolar tem que estar de acordo com o modo de ser dos seus destinatários (a população) e passa na forma como entendemos  o contexto em que a educação ocorre. É exactamente a partir desta percepção que surge a Pedagogia do Contexto que, dentre várias preocupações, evoca o êxodo exigindo que seja dada aos angolanos uma educação que tenha como princípio a realidade e as manifestações comunitárias e sociais próprias e características, e é importante que sejam aplicados métodos não ambíguos e que, possibilitem a promoção social e a liberdade intelectual.

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Escolhemos este tema  por termos entendido que, a  educação  é desde o ponto de vista social o  campo que agrega um conjunto de elementos e valores que emanam de uma realidade expressa, daí a Pedagogia do Contexto que é a bandeira e o símbolo da luta contra a partidarização da escola.

Haveria educação sem que se tivesse em conta o contexto? Para nós, o contexto é tudo aquilo que dá forma e corpo à realidade social desde os aspectos mais simples aos mais complexos.

Nossa proposta temática e , sobretudo pedagógica estará  voltada para questões atinentes e, características próprias de uma Angola nova, uma Angola que aos poucos tem conhecido  novas formas de organização e reorganização social em  que a educação parece ser a que mais recente e a que menos evoluiu fruto de uma polítcia orçamental que optou dar mais bônus orçamental à Segurança e outras benesses. E como  resultado vimos a educação colocada  no segundo plano.

A reflexão sobre a  Pedagogia do Contexto  traz os reflexos de uma sociedade quebrada pela ganância dos governantes que miram na progressão social sob uma única perspectiva, ou seja, na perspectiva que dá vantagem e fortifica o grupo no poder.

Faz tempo que temos assistido a crescente segregação em Angola em que as vantagens são cada vez mais para desfavorecer grande parte da sociedade. Enfim, vivemos uma realidade em que a educação vive sufocada e orientada em defesa dos interesses do grupo hegemónico transfomando-a num verdadeiro “aparelho ideológico do estado”.

Como não poderia deixar de ser, nosso ponto de partida são as experiências da vida social, aquelas que marcam nosso dia a dia. Trata-se de um começo que tem como prioridade  perceber com clareza o modus operandi e o modus vivendi, ou seja, ver e interpretar  como as coisas acontecem no dia a dia social, mas sobretudo como e que papel a escola ocupa na sociedade. Como uma reflexão filosófica, o nosso olhar não deixaria de ser crítico uma vez que uma vez que é sob esta perspectiva que o artigo é elaborado quebrando todos os constrangimento e apontando soluções e uma delas, a mais emergente é dar voz à escola e tirar dela toda roupagem partidária e ideológica.

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A Pedagogia do Contexto é na verdade o resultado desta análise e que representa para nós, um trajecto ideal rumo a consideração mais clara sobre o homem, sobre a sociedade no seu todo, pois é dele e para ele que a educação existe.

No entanto, para nós o contexto é sumamente importante para a elaboração de projetos educacionais, pois nenhuma comunidade existe além de seus objetivos e, os objetivos sociais devem ser obtidos a partir daquilo que representa a necessidade primária para os societários. Desta forma olhamos na educação como algo que deve ser pensada e tida como um bem comum fazendo dela num verdadeiro instrumento de promoção social e não só. Para tal é preciso que tenha em conta  o homem em primeiro lugar, o ser activo, presente e protagonista das mudanças sociais.

É fácil construir um artigo apenas baseando-se em factos do dia a dia? Certamente não, mas nosso interesse surgiu, porque olhamos na sociedade como vítima de uma educação esquecida e de uma sociedade atropelada. Daí que, entendemos refletir sobre a realidade da educação angolana por se revelar importante e indispensável, não somente para enriquecermos nossos conhecimentos, mas, sobretudo, para que se obtenha um conhecimento sólido, embora simples, mais útil, para percebermos o tipo de educação que recebemos e que muitos ainda irão receber.

Ainda, da nossa reflexão percebemos que a educação angolana está longe de promover e progredir além de que ela se detém aos ideais dogmáticos e elitistas e vê  no homem um “depósito cognoscente” obrigando-o a acreditar numa sociedade fantasma e tricolor!(2)

Por isso é que, se torna essencial entendermos que, o progresso da pedagogia como ciência envolve um conjunto de elementos uma vez que, seu objectivo é refletir a vertente teórica e prática afim de que, suas ações que são concretas e não abstratas, existem para transformar o aluno por meio de um modelo progressivo e cada vez mais congruente, ou seja, numa dinâmica em que se torna clara a inseparabilidade entre a teoria e a prática.

Uma educação feita na base do que são os angolanos  será capaz de responder às várias situações e preocupações sociais que os angolanos vivem. Daí a análise crítica sobre o estado atual da educação angolana, uma educação que se configura em parâmetros descontextualizados.

A luta e a exigência por uma educação de qualidade e de livre acesso, deve ser prioridade e traduzida numa luta e conquista da sociedade, porque a má qualidade do ensino não é um problema de alguns, mas de todos. Enquanto assumirmos um papel passivo estaremos de alguma forma a ser participes na construção de um país retroactivo. O homem angolano precisa ser pensado na sua totalidade por se tratar de um ser completo, ou seja é um ser social, político, somático, religioso, económico, enfim um ser que se completa a cada instante. Daí que “a desconsideração total pela formação integral do ser humano e a sua redução a puro treino fortalecem a maneira autoritária de falar de cima para baixo”(3).

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Importante também entendermos que a educação não é algo que ocorre fora do contexto social, daí a ideia da Pedagogia do Contexto, existe para a sociedade e na sociedade.  Isso nos dá a entender que, ao  formular políticas educativas precisamos ter em conta elementos que, mais do que olhar no homem como um todo, é preciso que sejam eliminados todos os constrangimentos, ou seja os elementos que desfiguram o ensino, impedindo a libertação das mentes, tais como: alienanção,descriminação, desigualdade, neocolonização, nepotismo, ditadura, arrogância, bajulação, o medo, a desordem, e tantos outros males que a sociedade tem vindo a conhecer nos últimos tempos. A educação deve promover valores de cidadania como: a liberdade, igualdade, integração, respeito, patriotismo, dignidade, cooperação, etc.

Análise aprofundada sobre à sociedade, não somente enriquece o modo de entender quem são nossos educadores, mas também faz com que tenhamos uma compreensão clara sobre a realidade actual das nossas escolas e isso será possível se entendermos o contexto tal como ele é e não como a queremos ver dando-lhe um formato ideológico e que fundamente a segregação e todos os problemas sociais e humanos.

Por isso a luta por uma escola sem partido deve começar na mudança de mentalidade olhando e tendo o contexto como ponto de partida.

O texto publicado é resumo de um estudo que temos vindo a desenvolver há mais de três (3) anos depois que percebemos a crise social que o país vive, embora alguns possam vir a discordar connosco o que para o fortalecimento da ciência é algo normal.

Esperamos que possa, embora minúsculo, contribuir para algo de vosso interesse, porque quando falamos de educação ou pedagogia não estamos fazendo mensão apenas aos elementos que entendem a escola, mas estão englobados outros elementos, como os sociológicos, psicológicos, históricos, económicos, políticos e tantos outros que possibilitam a compreensão da realidae como um todo.

Portanto, espero que em breve possamos ter o estudo publicado na sua íntegra e poder contruir ainda mais e alargar o nosso entendimento sobre a Pedagogia do Contexto e continuarmos a lutar e quem sabe, teremos uma escola sem partido.

 

Notas

  • CASTRO, Ana Maria de. Introdução ao pensamento sociológico. p.84.
  • O Conceito tricolor surge da ideia da escola partidarizada, fruto de uma sociedade estado ainda pensada a luz das ideias partidários. É uma analogia que para nós representa exactamente o tipo de sociedade que temos e como são as instituições públicas angolanas.
  • FREIRE,Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. p.113

 

 

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1 Comentário

  1. Luís Paulo

    Numa análise que faço sobre a missão da escola enquanto organização, apresento variadas variáveis ou circunstâncias a que a escola é analisada. Convergimos no que a despartidarização da escola diz respeito. Entendemos que a educação seja uma questão política (na sua essência), mas nunca poderia ser uma questão partidária, porquanto a partidarização da educação (escola) é torná-la doentia. (…)

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